quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Verdade em São Tomás de Aquino

Autora:
Prof. Dra. Lorella Congiunti – Pontifícia Universidade Urbaniana – Cidade do Vaticano – Roma – Itália.
Traduzido para o português: Prof. Dr. José Francisco de Assis Dias

Santo Tomás de Aquino (1225 -1274)

Sabemos bem como um dos grandes males do mundo contemporâneo seja constituído pelo relativismo. Uma explicação muito clara do que seja o “relativismo” foi dada pelo cardeal Joseph Ratzinger na homilia daMissa Pro Eligendo Romano Pontifice, do dia 18 de abril de 2005, na qual o definiu como “o deixar-se levar ‘cá e lá por qualquer vento de doutrina’” e nos mostra o violento perigo: “Vai se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa como última medida somente o próprio eu e as suas vontades”.
Várias vezes no curso do seu magistério, Bento XVI insistiu sobre estes aspectos. Por exemplo, no Discurso sobre “Fé, razão e universidade”, pronunciado naUniversità de Regensburg, em 12 de setembro de 2006, o Papa descreve a situação do mundo relativista: “O sujeito decide, em base às suas experiências, o que lhe parece religiosamente sustentável, e a “consciência” subjetiva se torna definitivamente a única instância ética. Deste modo, porém, o éthos e a religião perdem a sua força de criar uma comunidade e caem no âmbito da discrição pessoal”.
E ainda, por exemplo, na Encíclica Caritas in veritate, 29 junho de 2009, Bento XVI mostra os perigos insitos em uma visão relativista do homem; em modo particular na delicada questão da educação:
“Com o termo ‘educação’ não se refere somente à instrução ou à formação ao trabalho, ambas são causas importantes de desenvolvimento, mas à formação completa da pessoa. A este propósito vai sublinhado um aspecto problemático: para educar precisa saber quem é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. O afirmar-se de uma visão relativista de tal natureza põe sérios problemas à educação, sobretudo à educação moral, prejudicando a sua extensão a nível universal. Cedendo a semelhante relativismo, todos se tornam mais pobres, com consequências negativas também sobre a eficácia da ajuda às populações mais necessitadas, as quais não tem somente necessidade de meios econômicos ou técnicos, mas também de caminhos e de meios pedagógicos que auxiliem as pessoas na sua plena realização humana” (n. 61).
O verdadeiro problema é a questão da “verdade”, que envolve a razão e a fé. Na EncíclicaFides et Ratio, 14 de setembro de 1998, João Paulo II escreveu:
“A fé e a razão são como as duas asas com as quais o espírito humano se eleva rumo à contemplação da verdade. E Deus ao haver posto no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, definitivamente, de conhecê-lo porque, conhecendo-o e amando-o, possa chegar também à plena verdade sobre si mesmo”.
São Tomás de Aquino, na mesma encíclica, vem proposto como modelo pelo “grande mérito de por em primeiro plano a harmonia que intercorre entre a razão e a fé” (n. 43).
Como recorda ainda a Fides et Ratio: “Intimamente convencido que ‘omne verum a quocumque dicatur a Spiritu Sancto est’ – toda verdade dita vem do Espírito Santo – , São Tomás amou em maneira desinteressada a verdade. Ele a buscou por toda parte ela se pudesse manifestar, evidenciando ao máximo a sua universalidade”(n. 44).
Mas o que é a verdade para São Tomás? Queremos nos limitar à análise de uma passagem bem precisa da sua reflexão, ou seja, a I Questão Disputada De veritate, na qual no corpus do I Artigo a verdade vem definida “adaequatio rei et intellectus” – adequação da coisa e o intelecto.  Antes de tudo notemos que se trata de uma relação dinâmica de conformidade (na adequatioaparece a finalidade desta ad-aequatio) entre o intelecto e a coisa.
No corpus do artigo II, Tomás precisa que ocorre distinguir entre “intelecto divino” e “intelecto humano” (no qual se distinguem os intelectos especulativo e prático).
O homem não faz as coisas (exceto aquelas artificiais, que obtém por transformação); para o homem conhecer a verdade significa esforçar-se de compreender como são as coisas, adequar-se à verdade das coisas. Deus, ao invés, cria a realidade; o seu pensamento é criativo, portanto, as coisas são como Deus as pensa. Existe uma verdade ontológica da realidade, enquanto criada por Deus. Isto quer dizer que não se pode manipular a “bel prazer” a verdade. Podemos até “afirmar” que a água fervente não é fervente, mas sempre fervente ela será; assim como podemos também afirmar que o homem é somente matéria, mas ele permanecerá aquilo que ontologicamente é, síntese de alma e de corpo; ainda se pode afirmar que matar uma pessoa humana seja um bem, mas isto permanece sendo um mal.
Como escreve limpidamente São Tomás, no mesmo artigo II, o intelecto divino é “mensurante” não é mensurado, ou seja, é a medida do verdadeiro, do bom, do belo e não é submetido a nenhum vínculo: as coisas naturais são mensuradas enquanto respondem à racionalidade de Deus, têm uma identidade ontológica dada (o ouro é ouro e não prata, a água é água e não fogo, o homem é homem e não fera); mas elas são também “mensurantes”, isto é, elas são o termo do conhecimento humano, impõem-se ao pensamento que quer conhecer a verdade. Enfim o intelecto humano não é “mensurante”, mas mensurado, ou seja, não é medida das coisas, mas é medido pelas coisas: se quisermos conhecer a realidade, devemos nos esforçar de reconhecê-la assim como ela é.

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